Movimento Dulcynelandia e Ocupação Manuel Congo celebram os 100 anos de Dulcina de Moraes e mostram que o espaço público ainda pode promover encontros
A i n d a s ã o p o s s í v e i s e n c o n t r o s
e m e s p a ç o s p ú b l i c o s
Neste domingo, dia 20 de julho, estive presente na comemoração do centenário de Dulcina de Moraes, promovido pelo Movimento Dulcynelandia, em frente ao teatro (fechado!) que leva seu nome, na Rua Alcindo Guanabara, 7. Fui ao ato na qualidade de expectador – entre os meus objetivos estava o de assistir à leitura de ‘Luz e Sombra’, que escrevi com a Alexandra Arakawa (e que acabou sendo magistralmente engolida pela voragem antropofágica dos fatos). E nessa condição escrevo meu breve depoimento do que vi por lá.
Quando cheguei ao local, tudo parecia ainda um tanto incipiente. Mal suspeitava que a polícia já houvesse passado por lá e levado um dos palhaços para prestar esclarecimentos – desconfio que ele não deva ter achado muita graça nisso. Também não sabia da queda de luz e dos vários percalços já enfrentados até ali. E, acostumado por vício de profissão à repercussão midiática dos fatos, ainda questionava qual seria a efetividade daquilo que ainda estava se construindo. Sem intuir, no entanto, o que ainda estava por vir.
Se o vício de profissão me levava a questionar a efetividade daquele ato – o primeiro dos 100 chutes simbólicos nas portas fechadas do teatro – um outro vício, o do escritor que sou, deixava-me com os olhos e os ouvidos atentos ao instante. Sim, estava pronto para colher o momento que passa (esse “inquietante animalzinho, todo asas e todo patas” que, nas palavras de Quintana, “ardia como uma brasa, trepidava como um motor, dava uma angustiosa sensação de véspera de desabamento”.). E o momento que passa estava grávido das possibilidades que adviriam do improviso antropofágico, do encontro, do movimento.
Pouco depois da minha chegada, a roda de coco e ciranda “A Pisada” ditou o ritmo dos acontecimentos. O sentido pelo qual eu estava procurando logo na minha chegada parecia querer esboçar sua face para minhas retinas. E ele residia na celebração da possibilidade de encontros num espaço público. Mas ainda era um esboço de sua face que me chegava, pela celebração quase ritualística do canto e da dança – essas formas artísticas tão profundamente ligadas às formas mais primordiais do culto ao sagrado.
O Ensaio Aberto da quadrilha da Ocupação Manuel Congo foi para mim o ponto que desencadeou o inesperado, o surpreendente, o maravilhamento que a face do real tem quando supera o ideado. E talvez a força desse ensaio aberto tenha vindo do casamento perfeito de duas formas de espontaneidade: a da criança e a do artista. A partir dali, as crianças e os artistas comungaram no engendramento do caminho fluvial dos fatos. A beleza passou a transbordar nas brincadeiras, nas danças, na correria, na explosão do lúdico no meio da rua, sem pudores nem censuras. As fotos das crianças, dos palhaços e das danças, das cores e das imagens projetadas nas portas fechadas do Teatro Dulcina e nas retinas de todos ali presentes não me deixam mentir. Esse transbordamento de beleza e de euforia infantil, essa voragem antropofágica dos fatos engoliu muito do planejado – entre os quais a leitura do texto que eu tinha ido ali para ver. Mas engoliu pela força dos acontecimentos, com a magia dos feitiços peculiares às crianças e aos artistas. Tudo isso, sem esquecer do parabéns à Dulcina e da distribuição do bolo, feito em parceria pelo Movimento Dulcynelandia e pela Ocupação Manuel Congo.
Após a ida do DJ, a conversa entre aqueles que permaneciam ali, a troca de histórias, idéias e experiências (que me é tão cara, rara e preciosa, já que é material para o que escrevo) terminou de esculpir para mim a face do sentido e da efetividade daquele ato. Estava claro que em tempos onde a rua é vista quase como um obstáculo a ser transposto, é uma grande vitória celebrar a rua, o espaço público – tão esvaziado – como local de encontro, de troca, de arte e de luta. Voltei para casa, dentro do ônibus, pensando nisso. E lamentando o fato de não poder estar presente no próximo chute simbólico nas portas fechadas do Teatro Dulcina, que vai acontecer no dia 03 de agosto, já que estarei de volta a São Paulo...
Mesmo assim, acredito que um pouco do meu pé estará neste segundo chute, assim como a lembrança deste primeiro estará bem viva dentro de mim.
Texto escrito na madrugada do dia 22 para o dia 23 de julho de 2008 e publicado em http://www.apoiodulcynelandia.blogspot.com/.
Enforque-se na corda da liberdade!
C a s a d a s R o s a s
As paredes estão repletas, cheias

de palavras silentes e insuspeitas.
Esta poesia deve-lhes as meias
por extrair-lhes formas escorreitas.
Plurais estilos ornam meu poema,
desde aquele que me foge da memória
ao que sequer me serve como lema,
mas que escreve também a minha história.
Não suspeito se eu sinto ou se é miragem
o sabor que me sabe na linguagem
e me traceja assim: um ser que goza.
Mas eu sei que esta terra é bem fecunda...
Perdi-me no jardim que me circunda
e colhi desta casa a minha rosa.
- Virada Cultural 2007

Enforque-se na corda da liberdade!
V o z e s d o S i l ê n c i o
Certa vez ouvi de um físico que as ondas sonoras jamais se extinguem completamente. Vão perdendo intensidade, tornando-se infinitesimais, mas permanecem vagando imperceptíveis, nunca extintas.

Não sei a exatidão física e científica disso, que ouvi de um homem de ciências. Mas me espantam a força e a exatidão poética desta realidade que, mesmo irreal, merece existir ao menos nos devaneios e nas quimeras. E na minha mente. E no meu silêncio, povoado de versos arcaicos, sons primevos, melodias, canções, gritos e sussurros. Sim, por trás do silêncio oiço os sons que nunca se extinguem. Meu silêncio é e sempre foi povoado de sons.
Mesmo o meu silêncio de hoje, o não-dizer o que já se sabe, contém o que já foi dito. Mesmo na ausência de palavras de amor, retiro de ondas que não se extinguem os meus versos, molhados com palavras tão eternas, ditas, quiçá, pelos primeiros poetas anteriores à escrita.
Ante a eternidade de minhas palavras, que vagarão sem rumo no tempo sem fim do infinitesimal, é preciso ter cuidado. É preciso não dizer o que jamais desejaria assinar com a essência de minha carne, é preciso calar o que não deve ser tornado verbo. Por isso, extirpo de mim palavras letais e levianas; por isso amo as palavras poéticas e as persigo para persignar-me, incréu que sou, com aquilo que sei que sobreviverá a mim...
Retiro de trás do silêncio as vozes que ecoam em meu canto. E mesmo sem murmurar que te amo, vagam no espaço, eternas pelo tempo, as palavras de amor que nos dissemos e que nunca se extinguirão...
Enforque-se na corda da liberdade!
D e l u t o p e l o s i m u l a c r o q u e é n o s s a
d e m o c r a c i a
Em novembro de 2005, em Natal, após o término de um congresso, eu e alguns colegas saímos e fomos a um barzinho, 'bebemorar'. Ao lado de nossa mesa, a não mais do que cinco passos de nós, algumas meninas, que não deviam ter mais do que vinte e quatro anos (algumas poderiam ser até menores), se prostituíam. Seus fregueses pareciam europeus, e provavelmente o fossem.

Enquanto andava os cerca de trezentos metros entre minha casa e o colégio em que funcionava a 259ª Zona Eleitoral de São Paulo, onde fui votar, lembrava dessas meninas. Numa família em que as filhas logo cedo vêem como caminho a venda do próprio corpo, a venda do voto deve ser algo absolutamente normal. Porque a perversa combinação de voto obrigatório e o estado de permanente carência em que vive grande parte da população é a primeira peça que engendra a corrupção do sistema político: a corrupção eleitoral, pela formação dos chamados currais eleitorais.
O ministro Marco Aurélio, do TSE, num julgamento sobre se o eleitor poderia usar camisa de seu candidato para ir votar (a chamada 'manifestação individual e silenciosa'), disse que "daqui a pouco estaremos exigindo que o eleitor vá votar de luto". Aproveitando a ironia do ministro como uma sugestão, saí de preto, de luto, para ir votar. De luto pelo simulacro que é nossa democracia, onde somos paradoxalmente obrigados a exercer nossa liberdade de escolha. Em luto pelo Brasil que está diante de nós e pelo Brasil que sairá hoje das urnas, pois não tenho nenhum motivo para esperar que algo diferente e melhor venha emergir nestas eleições.
Em 2002, eu não votei; justifiquei meu voto. Diante do grande entusiasmo popular com a vitória de Lula, eu olhava tudo com certo distanciamento e grande desconfiança. Que aliança era aquela entre o PT e o PL, de Crivela, Waldemar da Costa Neto (então presidente do PL) e uma das figuras mais execráveis da política nacional, o então chamado Bispo Rodrigues? Esta era apenas uma das muitas alianças espúrias que foram se descortinando depois, ante os meus olhos, que envolviam até o PP, de Maluf. Eram, obviamente, partidos que estariam com o poder, estivesse o poder onde estivesse.
Com isso, após ter votado, não sei se exerci um direito, cumpri um dever ou cometi um crime. Talvez os limiares destas três categorias não estejam bem delimitados em nosso arremedo de democracia.
Abaixo, um texto que recebi por email, cuja relação com o dia de hoje é bastante óbvia:
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O VÍDEO DA CICARELLI
No país em que o caminho para a reeleição é embalado por medidas como um cartão do Bolsa Família que permite sacar R$ 120 apareceu um débil mental com R$ 1,7 milhão -- com nota em cima de nota -- para pagar por um conjunto de papéis com denúncias contra tucanos de São Paulo.
Óbvio que o tal do dinheiro virou um escândalo. O retardado com a mala carregava no carro dinheiro de um prêmio de loteria para pagar por meia dúzia de papéis. Merece colocar na cadeia quem carrega e quem pagou pela compra.
Isso posto, vamos aos tais dos documentos. Enfim, o que havia nos papéis que valiam R$ 1,7 milhão ????
Qualquer informação com esse preço merece ser investigada, com boa chance de chegar a uma conclusão óbvia: assim como o picareta que iria pagar pelos documentos -- e o que iria vender -- provavelmente iria aparecer algum tucano como forte candidato a puxar um tempo de cana também.
Mas é difícil acreditar que Lula perca a reeleição, que Serra não seja eleito ou que algum cacique petista ou tucano acabe na cadeia por essa história.
Mas enquanto o escândalo todo explode na cara do país, quatro notícias sobre um vídeo da apresentadora e modelo Daniella Cicarelli namorando em uma praia da Espanha lideram a lista dos cinco textos mais lidos no site do maior jornal do país, a Folha de S.Paulo.
Agora considere que em torno de 10% da população tem acesso à Internet, um público qualificado. Desses uma minoria, algo ínfimo, deve estar lendo jornais, menos ainda especificamente a Folha. E o tema preferido é o vídeo da Cicarelli.
Não se trata de julgamento moral ou de condenar quem quis ver o tal do vídeo. Mas transformar em prioridade tudo o que se falou sobre o vídeo depois da notícia principal deixa larga diferença.
Tão larga a ponto de justificar como um débil mental a serviço do principal grupo político do país paga R$ 1,7 milhão em notas por meia dúzia de papéis com denúncias gravíssimas contra o segundo grupo político do país e nenhum deles vai ser punido.
Pior, já se fala até em acordos de bastidores entre os dois grupos para facilitar os mandatos de um lado e de outro. Enquanto o país pára pra ver o que namorado fez com a Cicarelli, estão fazendo coisa muito mais obscena com o cidadão.
Rogério Martinez - 21-09-2006
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Enforque-se na corda da liberdade!
A l g u m a s n o t a s s o b r e o t e x t o a n t e r i o r
"Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz"
(Dueto -- Chico Buarque de Hollanda)
(para quem sabe que este texto foi feito para si)
Uma pessoa a quem muito admiro, entre outras coisas por sua prodigiosa inteligência, me chamou a atenção para algumas falhas do meu texto anterior, aqui publicado no dia 03 de setembro. Nossa conversa sobre o meu texto anterior me deu azo de escrever este. Devo-lhe, se não lhe atribuir a co-autoria deste texto (até porque pode ser que o presente texto seja bem mais limitado do que suas capacidades e visões), pelo menos agradecer-lhe os argumentos, que são, em grade parte, desta pessoa.
A primeira falha do meu texto, que também foi apontada em um comentário pela minha amiga Mari Pepper, diz respeito à classificação do músculo cardíaco. Vão me perdoar os eventuais leitores de meu texto pela minha ignorância (que até pode ser justificada pelo fato de eu não ter estudado mais biologia desde 1998, há oito anos, portanto). Então, aproveito o ensejo para explicar que há dois tipos de músculos estriados. Os chamados músculos estriados esqueléticos (que são aqueles que envolvem nossa estrutura óssea e conferem movimento ao nosso corpo), cujas contrações são voluntárias, e o músculo estriado cardíaco, diferente do primeiro grupo, e cujas contrações são involuntárias. Portanto, mais do que uma exceção, o músculo cardíaco é um outro tipo de músculo, dentro do que seria uma classificação muscular geral (há também os músculos lisos, mas minha ignorância e meu esquecimento vão me fazer encerrar esta questão da classificação dos músculos aqui, questão esta que pode ser encontrada num bom livro -- atualizado -- de biologia ou de anatomia).

A segunda falha apontada em meu texto (que considero polêmica, não sei se pela minha ignorância ou por eu ser um nefelibata que vive no mundo das quimeras), diz respeito a uma afirmação sobre a natureza dos sentimentos (estou ainda no campo das falhas biológicas). Eu afirmo, quando comparo os sentimentos ao coração, que os sentimentos são involuntários, como as batidas deste músculo estriado cardíaco que nossa sociedade vê metaforicamente como a sede dos sentimentos. Segundo apurou esta querida pessoa que me apontou as falhas e me deu os argumentos para este texto, isso não pode ser afirmado, pois, biologicamente, os sentimentos são cerebrais, ou seja, são ligados a áreas do nosso cérebro, e tudo quanto é cerebral é voluntário. Não tenho conhecimento suficiente para contradizer esta informação, obtida com alguém que entende do assunto, mas mesmo assim ela me parece um tanto controversa. Se tudo quanto é cerebral é voluntário (e os sentimentos seriam voluntários porque são cerebrais), como explicar que, diante de uma situação de medo, o cérebro, malgrado nossa vontade, mande despejar adrenalina em nossa corrente sangüínea? Não me parece que tenhamos controle sobre isso, que é cerebral. Também é cerebral a sensação de saciedade que sentimos, após o cérebro ser informado de que já comemos. Se isso pudesse ser controlado pela vontade, fazer dieta seria muito fácil, bastando que a vontade mandasse o cérebro liberar as substâncias que costumeiramente causam saciedade depois de um farto almoço logo após se comer duas folhas de alface... Mas, como já disse, não tenho conhecimentos suficientes que possam me dar embasamento para discordar peremptoriamente de que os sentimentos, por serem cerebrais, são voluntários (o que significa que são coisas que podemos acionar de acordo com nossa vontade, como os músculos estriados esqueléticos). Estas são apenas questões que me surgiram e que me fazem ver com alguma descrença esta segunda informação.
A terceira falha, no meu entender a mais séria e que demandou uma grande sagacidade da pessoa que ma apontou -- pessoa que, volto a dizê-lo, admiro demais, entre outras coisas por sua refinada inteligência --, é uma falha para a qual não tenho escusas, haja vista ser uma falha argumentativa. No meu texto anterior habita uma contradição que faz com que se perca todo o embasamento em que a tese de os sentimentos serem involuntários se sustentava. E essa contradição reside neste trecho: "Afinal somente um músculo involuntário poderia se entender com o que em nós também é tão involuntário quanto ele: o que sentimos. Podemos domar nossos sentimentos. Podemos lutar contra eles e caminhar em direção contrária à que eles nos apontam. Não fosse assim, seria impossível calar quando a vontade é de brigar, seria impossível manter-se longe de algo ou alguém de quem temos o desejo de estar perto. Lutamos e vencemos, todos os dias, pequenos ou grandes sentimentos. Mas não deixamos de senti-los." Ora bolas, se os sentimentos são involuntários, como eu sustento durante todo o texto, como eles podem ser domados? Como podem se submeter à nossa vontade?
Ante esta contradição, indesculpável, posto que não se trata de uma ignorância científica mas de uma falha argumentativa, discursiva, lógica, fiquei a inquirir sobre que visão tenho eu, realmente, em relação à natureza dos sentimentos. Analisando meu discurso quase como um psicanalista ao seu paciente, penso que a emergência deste ato falho consiste num sintoma. Mas de quê? Que visões sobre os sentimentos perpassam meu discurso? Comecei a investigar isso, enquanto esboçava na minha mente a estrutura ou o roteiro do presente texto.
Pode-se ter uma visão essencial dos sentimentos, ou seja, considerá-los como entes que têm uma forma (ou essência) que lhes molda uma substância que subsiste aos acidentes. Ou, talvez com maior precisão, enxergar o homem dotado de uma forma (essência ou alma) que lhe conforma a substância para além do acidental. Esta forma, não sendo apenas física, mas também psíquica, determinaria as formas do nosso sentir. Partindo deste princípio (que vulgarmente é conhecido pelo ditado "pau que nasce torto nunca se endireita"), os sentimentos seriam moldados pela forma do nosso ente, sendo os homens bons, maus, apaixonados, indiferentes, irascíveis ou mansos por natureza. Dentro deste pensamento, cada homem traria em si o destino de seu sentir. Falar que os sentimentos que sentimos têm origem nas conjunções astrológicas ou nos insondáveis desígnios dos deuses são variações desta explicação.
Ainda que não sejamos tão rígidos nesta acepção da forma, podemos partir para uma visão em que os homens são dotados de uma espécie de essência maleável (a que se chamaria tendência), contra as quais tentariam lutar. Muitas doutrinas espiritualistas trabalham com essa idéia, ao afirmarem que os sentimentos preexistem à realidade física que os sente. Mesmo doutrinas não reencarnacionistas, como a católica, vêem no pecado original uma tendência humana a cultivar certos sentimentos ou certas paixões negativas, contra os quais se deve firmemente opor a vontade.
Uma variante menos metafísica desta visão seria afirmar que nossos sentimentos estão escritos, não nos astros nem nos desígnios divinos, menos ainda na essência que confere unidade à nossa substância para além dos acidentes, mas em nossas combinações genéticas. Já ouvi, aliás, de um professor que tive, que a genética é a versão contemporânea do destino dos gregos...
O extremo oposto desta visão seria um nominalismo absoluto "à Cazuza", do tipo "O nosso amor a gente inventa". Ou seja, dentro do extremo desta visão, os sentimentos são construções da vontade. Esta visão não difere muito da que se esboça quando se afirma que, sendo cerebrais, os sentimentos são voluntários. E se assim for, pode-se perguntar por que grande parte dos homens sofre por causa de sentimentos que poderia manipular ou construir de acordo com sua vontade. Qual a razão de tamanha "burrice sentimental"? Por que tantos se apaixonam pelos que não os querem e não amam aqueles que os amam? Não deve ser pela ação da vontade, provavelmente, ou teríamos uma população gigantesca de masoquistas.
Perdido entre estes dois opostos (meu texto anterior afirma que sentimos malgrado a nossa vontade, mas diz que podemos domar nossos sentimentos), questiono sobre o porquê de eu ver os sentimentos dentro deste paradoxo. Pois é um paradoxo haver algo involuntário que se pode domar. É um paradoxo cerzido nos fios desta contradição. A realidade dos sentimentos é este paradoxo?
Sinto os sentimentos como tendo a mesma gênese lingüística de nossos pensamentos. Razão e emoção apenas subsistem na linguagem e, por isso, são tão humanos, demasiado humanos. Oponho aqui, claro, sentimento e sensação. O sentimento me parece lingüístico, entrecortado por fluxos discursivos. Os gregos que, segundo ouvi de um teólogo, tinham três palavras diferentes para designar o amor (eros, ágape e filia), certamente tinham uma experiência do amor diversa da nossa. Viam-se, possivelmente, tão aturdidos por ele(s) quanto nós, no entanto. Já sensação é física, animal. Mas, se o fato de sentir o sentimento como uma realidade discursiva me parece levar a vê-lo como algo em que se opera a vontade, ao mesmo tempo percebo o que sinto também como involuntário, ou antes, como algo que escapa à minha vontade e ao meu controle. Como explicar, então, esse paradoxo dos sentimentos?
A resposta que tateio é aplicar ao que sentimos a teoria do caos. Afirma esta teoria, num fenômeno conhecido pelo nome "efeito borboleta", que "o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez provocar um tufão do outro lado do mundo". Acho que assim como se formam os tufões, quiçá as próprias galáxias, também se formam nossos pensamentos e sentimentos, tão irmanados em sua natureza discursiva. Para a formação do que sentimos, entram em curso tantas e tão inumerosas variáveis, que a nossa vontade, sendo uma delas, muitas vezes se sente impotente para deter-lhe ou determinar-lhe o curso. É muito improvável que consigamos, aliás, saber a influência exata de nossa vontade na intensidade e no sentido desses vetores sentimentais. Por isso sinto que, embora possam algumas vezes se sujeitar à nossa vontade, os sentimentos também lhe escapam noutras tantas, caindo no pantanoso terreno do involuntário. O paradoxo constitutivo dos sentimentos se explica (ou se complica) na teoria do caos.
Mas se a ciência provar o contrário, se o calendário nos contrariar e se o destino insistir em nos separar, danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos, profetas, sinopses, espelhos, conselhos, se dane o evangelho e todos os orixás... Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz.

Enforque-se na corda da liberdade!
O m e u c o r a ç ã o é u m m ú s c u l o i n v o l u n t á r i o
e e l e p u l s a p o r v o c ê
"Onde já se viu o mar apaixonado por uma menina?
Quem já conseguiu dominar o amor?
Por que é que o mar não se apaixona por uma lagoa?
Porque a gente nunca sabe de quem vai gostar
Ana e o mar... mar e Ana
Historias que nos contam na cama
Antes da gente dormir
Ana e o mar... mar e Ana
Todo sopro que apaga uma chama
Reacende o que for pra ficar"
(Ana e o Mar -- Fernando Anitelli)
Diz-se, se não me falha a memória, que o coração é o único músculo estriado cujo movimento é involuntário. O que significa que ele se contrai malgrado a nossa vontade. Ele pulsa sem que ordenemos e, na maior parte das vezes, sem até mesmo que o sintamos bater, no seu incessante trabalho de sístoles e diástoles.
Inda que eu esteja enganado e haja mais um músculo estriado de movimento involuntário (eu não lembro bem esse detalhe e não conheço anatomia o suficiente para fazer afirmações peremptórias neste sentido), indubitável é que o coração pertence ao rol de exceções do corpo humano. Isso porque os músculos estriados são aqueles cuja contração depende da vontade, da voluntas.
É aí que, ao figurar nesta lista de exceções, sendo um músculo involuntário, quando por suas características era de se esperar o contrário, parece o coração anunciar -- com esse fato -- sua destinação. Ou antes, anunciar num complexo sistema simbólico a realidade dos sentimentos que nos assaltam.
Pôs o homem simbolicamente no coração a sede dos sentimentos. Afinal somente um músculo involuntário poderia se entender com o que em nós também é tão involuntário quanto ele: o que sentimos. Podemos domar nossos sentimentos. Podemos lutar contra eles e caminhar em direção contrária à que eles nos apontam. Não fosse assim, seria impossível calar quando a vontade é de brigar, seria impossível manter-se longe de algo ou alguém de quem temos o desejo de estar perto. Lutamos e vencemos, todos os dias, pequenos ou grandes sentimentos. Mas não deixamos de senti-los. E, quando são demasiado intensos, às vezes se torna mesmo impossível não caminhar na direção em que nos apontam.
Assim, como no fragmento da música que abre este texto, pergunto: quem já conseguiu dominar o amor? Quem é capaz de dizer ao coração 'ame' ou 'não ame'? O amor não conhece medidas nem conveniências, burla cálculos, inverte números e subverte fórmulas. O amor é a desmedida do humano. É o carro desgovernado em direção ao precipício. É o potro selvagem e indomável correndo em planícies arcaicas. O amor é o que não se define, mas que se conhece muito bem. É o solvente universal das almas.
O senhor de todos os mistérios -- o tempo -- pode operar transmutações em nosso sentir. Simpatias podem virar indiferença, tristezas podem virar alívio, aparentes incompatibilidades podem se tornar amizades... Dizem até que amor pode virar ódio, embora eu não creia na realidade desta suposição, não a entendo possível. Entendo até que é possível uma paixão se transformar em ódio, mas não o amor, que pode mudar de face, tornar-se fraterno, quando antes era erótico, por exemplo. Até suponho que o amor pode virar um não-amor, mas o ódio e o amor não me parecem semelhantes para se permitirem dissolver um nas fibras do outro. Porém, se sentimentos podem mudar com o tempo, o tempo daquilo que se sente é sempre o presente. Sobretudo em se tratando do amor. Não se ama ou deixa de amar com organogramas, ou por cartas precatórias, tratados, leis, decretos ou medidas provisórias. Não se ama pensando se no futuro o amor continuará. Ele não tem prazo de validade. O amor é válido enquanto durar o estoque. O amor só admite o presente em seu bojo. Em seu estojo, o único átimo que se guarda se chama agora.
Por isso, repetindo as palavras daquela canção de Marisa Monte, afirmo peremptoriamente que meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você...
Enforque-se na corda da liberdade!
Alhures escreveu Rousseau -- e já tomei nota de suas palavras -- compreender "porque os que moram em cidades, e só vêem paredes, ruas e crimes, têm pouca fé (ROUSSEAU, J. J. As Confissões. Livro XII, p. 582). Tais palavras muito me impressionaram e julgo cada vez mais ter a nítida percepção do seu sentido.
S o b r e f é
A fé evaporara no seio de uma grande metrópole, entre paredes, asfalto e concreto. A fé esmoreceu ao sentir a frieza das pessoas, a distância mantida fechada atrás das portas dos apartamentos; ao ver o céu entrecortado de janelas dos edifícios e pouco da amplidão azul para ser admirada.
Não tenho certeza se o concreto dos edifícios, a artificialidade da orla aterrada, tão simétrica, tão geométrica, tão distante de suas naturais sinuosidades, são responsáveis por essa descrença adquirida no livro das imanências, essa desconfiança, essa incerteza até em relação às coisas que podem ser vistas e tocadas, que são sólidas, mas se desmancham no ar das desilusões. Não sei se, quando o olhar está imerso somente no universo humano, na materialidade dos problemas estruturais, das descrições físicas, biológicas, sociológicas das massas (de matéria, de células e das gentes), o olho perde a capacidade de perguntar às coisas sobre o Criador, "consisitindo a pergunta em contemplá-las e a resposta em sua beleza" (AGOSTINHO, St. Confissões. Livro X Cap. 6). Isso porque contemplar a cidade não é contemplar só a genialidade do gênero humano, mas também a utilitária forma das coisas, onde nem sempre assiste a beleza, posto não haver beleza utilitária, uma vez que a beleza se dá gratuitamente à contemplação dos sentidos dispostos a contemplá-la.
Não sei se o fato de meus pés já há muito desconhecerem a textura de um chão de -- terra ou areia --, só experimentarem a lisa indiferenciação de pavimentos e não poderem se sentir raízes para penetrarem e se irmanarem à terra contribui para a descrença. Quem não tem raízes pode também não ter certezas.
Onde minhas certezas telúricas?
(Escrito publicado em http://br.geocities.com/teofilotostes/ no dia 30 de abril de 2004)
Enforque-se na corda da liberdade!
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O a m o r c o m e u m e u n o m e . . .
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
(As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.)
Porque há dias em que temos tanto a dizer e, ao mesmo tempo, tateamos em busca de palavras que teimam em não ser tão sublimes quanto o que queremos falar, pego emprestado este texto de João Cabral, já que nele há tudo quanto desejo expressar hoje.

Enforque-se na corda da liberdade!
C o n s i d e r a ç õ e s I n t e m p e s t i v a s
s o b r e u m a V i t ó r i a
O que faz com que nos alegremos com uma conquista que, racionalmente, não é nossa?
Se o conceito de Estado-Nação, como argumenta Benedict Anderson em Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism, depende do desenvolvimento dos meios de comunicação (especificamente da imprensa) que integram diferentes falantes de uma mesma língua, que passam a se conceber uns aos outros como uma comunidade, uma comunidade imaginada, não é muito diferente o que acontece em relação a uma torcida de futebol. Uma relação identitária é erigida e passamos a nos comportar como se determinados eventos fossem intimamente ligados a nós, a todos quantos se integram nesta relação.
Ontem (26/07), o Flamengo "levantou poeira", venceu o Vasco por 1 x 0 e sagrou-se bicampeão da Copa do Brasil. É uma conquista que, diretamente, não tem relação real comigo. Mas estou muito satisfeito com essa vitória, como se minha fosse. Hoje, caso eu encontrasse o porteiro do prédio no qual morei no Rio de Janeiro, certamente eu ou ele diríamos: "nós ganhamos". A um vascaíno, diríamos: "vocês perderam". E tudo isso é uma relação imaginada, pois, em verdade, nem eu nem o Victor (o porteiro) estivemos lá no local do jogo (a relação é mediada por um meio de comunicação de massa, que nos integra) e, inda que estivéssemos lá, como torcedores, entre os milhares que estiveram no Maracanã, não poderíamos dizer, de fato, que nós ganhamos. Podemos dizer, ao acompanharmos a vitória do Flamengo sobre o Vasco, que vimos vencer o time de nossa predileção. Mas isso parece frio!
Efetivamente, sofremos se o time de nossa predileção perde, e nos alegramos, quando se dá a sua vitória. Por quê? A relação se torna apaixonada, como uma relação patriótica (a idéia de morrer pela pátria é tão estranha quanto esta que ora exponho).
Isto para mim se constitui um mistério. Por que é tão bom conquistar um título, ou antes, ver o time do Flamengo conquistar um título em cima do time do Vasco?
Enforque-se na corda da liberdade!
C o m o n ã o t e a m a r ?

Como não te amar, se minha maior liberdade é estar preso em ti, a ti, nas celas e cancelas de teu coração, nas masmorras de tua alma, na tortura insana de teus dentes na minha carne, de teu cheiro no meu corpo, lacerando-me, unhando-me, sugando-me, mordendo-me até que eu morra de amor, num urro alto e sem fim? Como não te amar, se quero ler todos os teus textos: poemas e prosas? Como não te amar, se quero escrever minhas cartas de amor na tua pele, se quero grafar minha caligrafia em teu corpo, se quero marcar-te, indelevelmente, com meu ser? Como não te amar, se quero que sejas a minha rotina? Como não te amar, se é em tuas asas de manteiga que eu sei voar?
Enforque-se na corda da liberdade!
A l m o ç o c o m a R e a l i d a d e
Esperava o sushi na mesa quase do lado de fora do restaurante, um pequeno restaurante japonês no estacionamento de um hipermercado a poucos metros da Avenida Paulista. Estava de costas para o estacionamento e para rua. Os olhos estavam voltados para o interior do restaurante e seu movimento de pessoas apressadas. O olhar, no entanto, se mantinha voltado para dentro, mirando paragens, cartografias, tons e ruínas do íntimo.
Não pensava no trabalho -- nem no realizado, nem naquele que me esperava. Acho que eu vagava entre desejos, esperanças e escombros. Estava tão dentro de mim, que não via o movimento, não notava a demora do sushi, nem a realidade à minha volta.
Súbito, a realidade toca em meu ombro direito e me chama:
-- Tio, você tem um trocado pra me ajudar pra eu comprar (o que?) para o meu irmão?
A realidade era pequenina, como sua voz. Tinha o nariz sujo e uma espontaneidade na forma de pedir sem gaguejar. Falava baixo, como convinha a uma realidade pedinte, ainda mais sendo tão desprovida de tamanho. A realidade -- um menino de pouco mais de seis anos, creio eu -- não estava sozinha. Vinha acompanhada de outra realidade, provavelmente o irmão, igualmente com o nariz sujo, mas com o olhar assustado de quem certamente não saberia pedir sem gaguejar. Aquela realidade ainda menor, que não devia ter acompanhado mais do que quatro primaveras, segurava uma nota de um real, que às vezes era levada à boca.
O repentino encontro com aquelas realidadezinhas de narizes sujos me assustou. Elas chegaram silenciosas e sorrateiras e, com a voz mansa e macia, me arrancaram violentamente de meu mundo. O susto, que me fez retesar o corpo e empalidecer, chegou-me logo ao toque sutil da mãozinha da realidade em meu ombro. Naquele instante, conheci o pavor das feras despertadas de seus sonos pela iminência dos perigos selvagens.
Visivelmente confuso, gaguejando bastante, talvez reaprendendo ali mesmo, no improviso da hora inesperada, a encaixar na minha fala os eixos sintagmático e paradigmático da língua (onde estaria Barthes e seus elementos de semiologia?), respondi:
-- Aqui comigo, eu não tenho nem dinheiro nenhum, não.
Aquela realidade diminuta sorriu, com olhos e lábios, achando graça do ocorrido, embora a muito custo tentasse demonstrar alguma seriedade. Aquele sorriso não era do pedinte, mas da criança que extrai graça a um acontecido. A realidade menorzinha não sorriu, parecia ainda mais assustada com meus olhos empalidecidos de susto. A essa altura, já recobrei a cor e imaginava que gosto teria aquela nota verde na boca da criancinha. O menino maior, que conduz seu irmão, ensaia entrar no restaurante. Percebe, no entanto, que logo será enxotado dali, afinal, clientes tão ocupados com suas próprias realidades objetivas, com seus trabalhos, seus negócios, seus laudos, números, sistemas e cifrões, não podem ser importunados por aquelas nanicas realidadezinhas pedintes. Talvez somente eu, que estava tão dentro de mim e tão fora do mundo, pudesse ser abordado àquela hora. Então, o menino perde o jeito sério de pedinte e põe molecagem infantil em seus olhinhos. Vira para mim já se rindo e me pergunta:
-- Você levou o maior susto, né?
Sorrio, mas antes que eu responda uma voz donde emana autoridade e coerção aborda aqueles seres reais:
-- Onde estão seus pais que não estão acompanhando vocês?
-- Tá ali, ó -- aponta o maior.
-- Me leva lá pra eu poder conversar com eles.
É o segurança do estacionamento, creio eu. Tenta coibir a exploração infantil ao mesmo tempo em que impede que a realidade dos clientes do hipermercado, incluindo aí os do restaurante que fica em suas dependências, seja disturbada por quaisquer realidades mendicantes. Talvez até conheça os pais daquelas crianças. O maior, com toda desenvoltura, ainda tenta contornar a situação. Os olhinhos do menor, no entanto, ficam ainda mais assustados e sua boquinha morde com sofreguidão a nota verdinha de um real que ele conserva em mãos. Certamente pela pressão dos que exploram a sujeira de seus narizes pedintes, mas também pela necessidade de sobreviver, aquele serzinho aprende, com lições duras e de sabor amargo, qual o valor do dinheiro.
Ainda meio atônito com a rapidez do ocorrido, não olho para trás. Apenas meus pensamentos se despedem daquelas realidades tão pequerruchas. Ou nem isso, pois meus pensamentos, antes alheios ao que me circundava, não conseguem se desvencilhar daquela súbita invasão da realidade. Não volto logo para dentro de mim, e mesmo quando o faço, não retorno mais aos pensamentos de desejos e ruínas que me alheavam e ensimesmavam. Em vez disso, começo a imaginar como seria um insólito convite àquelas realidades para que almoçassem comigo. Esse pensamento me chega junto com o meu sushi. Fico a imaginar como seria ensinar àqueles serezinhos a usar o hashi para pegar aquelas trouxinhas de salmão cru com arroz, para colocar o gengibre sobre os sushis e mergulhá-los no shoyu. Assim, compartilharíamos boas gargalhadas com as bagunças e as tentativas malogradas. Não... Isso não faz parte da realidade, concluo. É apenas um devaneio meu.
Queria, no entanto, ter ofertado algo mais do que o meu susto àquelas criaturazinhas. Não que o meu susto tenha sido oferta sem valor algum, já que despertou um pequeno riso. Sim, não foi pouco, pois involuntariamente eu ofertei um motivo para sorrir. E foi um riso gostoso de criança, espremido e sufocado diante do rito formal que a ocasião exigia -- já que não é usual que sorriam os pedintes. Acho que fiquei até com saudades daqueles narizes sujinhos, das outras risadas que imaginei que poderíamos dar juntos, ante o afogamento de um sushi no shoyu.
Via-me envolto nestes pensamentos enquanto tentava conduzir um pouco do gengibre para cima de um sushi com o hashi. Mas não estava totalmente alheado da realidade circundante. Na mesa ao lado, duas mulheres falavam de negócios, números e contratos. O sushiman pegava mais uma posta de salmão para fatiar. Eu quase afoguei meu sushi outra vez...
Neste instante, reparo que outra realidade se aproxima. É uma menina de uns doze anos, idade de Otoyo, personagem de "O Barba Ruiva", de Kurosawa, que protagoniza a mais bela cena que eu vi até hoje no cinema ao lado de seu novo amigo Chobo, de sete anos, em que este, em meio a um varal de roupas estendidas, dá-lhe pirulitos roubados por ela tê-lo deixado escapar quando ele roubara uma tigela de sopa de aveias da clínica Koshikawa. Esta Otoyo que se aproxima tem traços nordestinos e carrega nas costas uma sacola. Não tem nariz sujo como os daquelas duas realidadezinhas que me abordaram pouco antes, mas suas roupas estão um pouco sujas. Ela percebe que a olho e, não sei se pela proximidade ou se por eu ter sido o primeiro ali a notar-lhe a presença, ela, sem rodeios, pede-me para eu lhe pagar um refrigerante.

-- Pode pedir lá dentro -- respondo timidamente.
Ela entra, pede o que lhe apraz à dona do restaurante, que fica no caixa, e aponta para minha mesa. Aceno positivamente com a cabeça e com um sorriso. Não reparo com que refrigerante ela sai de dentro do restaurante. Ela sai apressada, como pressentindo que ali não é seu lugar e que somente o acaso a pôs ali dentro. Mas na saída, olha para mim e diz:
-- Obrigada! Deus lhe pague!
Como resposta eu apenas sorrio. Os papéis, embora ninguém notasse, estavam invertidos. Era eu quem devia lhe agradecer, pois não é sempre que um raio de realidade cai duas vezes sobre o mesmo lugar e muito menos freqüente ainda é a materialização súbita de nossos devaneios. Penso nisso enquanto a Otoyo nordestina alcança uma saída lateral no estacionamento e some numa rua paralela à Avenida Paulista, a duas quadras do coração de São Paulo.
Enforque-se na corda da liberdade!
D a n c e r i n t h e D a r k

"They say it is the last song
They don't know us, you see
It's only the last song
If we let it be"
(From the movie "Dancer in the Dark", 2000)
Se nos abandona a luz dos olhos, que outra luz nos resta para guiar nossos passos na escuridão? O senso dos sons? A luz do sentir? O brilho de uma esperança?
Ontem, Lars von Trier mo indagou em sua poética de sons, perfeitamente traduzidas nas expressões e na voz de Björk. E alguém tão apaixonado pelos sons, pela música, não poderia ficar indiferente à beleza deste filme. Alguém tão apaixonado pelos sons não consegue não se apaixonar por Selma Jezková, mergulhada em sua luz interna, apagada em seus olhos para as luzes do mundo.
Escusando resumir aqui o filme, pois suponho que todos que me lêem o tenham visto, ou guardo a esperança de que alguns o vejam após me lerem, passo a comentar alguns pontos tocantes. Cumpre destacar, em primeiro lugar, a duplicidade de Selma. São quase dois personagens que desfilam sob nossos olhos. A Selma que provavelmente todos vêem é uma mulher tímida, quase retraída, oprimida entre a dureza de sua vida, o desespero de sua condição e a culpa de carregar e transmitir seu destino hereditário -- a hereditariedade, em toda sua tragédia, é a forma contemporânea do destino. Mas há uma outra Selma, que vive pelos êxtases que a música, que os sons lhe proporcionam, que desfila lépida e destemida em seu mundo íntimo de sons e sensações. A foto ao lado mostra um momento em que Selma se esforça para ouvir sons de uma capela que escapam pelos subterrâneos e interstícios do presídio em que está confinada. Esta é a cena que, particularmente, mais me tocou. Embora esteja quase em êxtase, a personagem de Björk está vivendo a agonia de não sabem se a suprema corte irá conceder um adiamento da pena de morte a que ela foi condenada, o que permitiria que ela reabrisse o processo. A tensão da cena e do momento é contrastante com a expressão quase alheia em que a personagem se deixa flagrar, neste instante, transportada para as íntimas paisagens graças à quebra do silêncio que a incomoda no presídio.

Outro instante absolutamente mágico é o final do filme. Não o irei contar, posto que talvez alguns não o tenham visto, mas vale o registro da surpreendente força com que Björk canta sua penúltima canção (This isn't the last song / There is no violin / The choir is so quiet -- Next to the last song), com uma voz ao mesmo tempo embargada e enorme. Neste final, na metáfora de não se permitir a última canção -- a Selma fala, durante o filme, que quando assistia a musicais sempre saía antes da última canção -- um suspiro de esperança evola do filme de Lars von Trier. E, neste ponto, há uma grande diferença entre "Dançando no Escuro" e "Dogville" (ambos de Lars von Trier). Em ambos, as personagens principais cometem assassinatos brutais. Mas em Dogville, ao fazer o espectador partilhar do prazer da vingança de Grace, resta a impressão de que realmente o mundo é como Dogville. Assustamo-nos ao partilhar o prazer desta vingança e a humanidade que nos resta pela frente parece não ter qualquer "suspiro de esperança", qualquer sopro sublime que a justifique. Mas em dançando no escuro, Selma já está perdoada antes de cometer o assassinato e, embora seja condenada ao final (o que nos deixa a impressão de uma enorme injustiça), nenhum espectador sequer cogita condená-la (You did what you had to do, também cantamos para ela). E no destino de Selma, somado à mensagem final, com que abri estas considerações, o sublime e a esperança no ser humano se evidenciam.


Enforque-se na corda da liberdade!
Impossível nos é, no mundo hodierno, não evocarmos Heráclito. Ele mesmo, que viu num mundo cercado de eternidades, num mundo de lavouras e navios, de céus e circularidades, num tempo do ser, a impermanência de todas as coisas.
E s t o u d e m u d a n ç a
Nossa vida flui como um rio. Sua água escorre pelos dedos do tempo -- ou é o tempo que escorre pelos dentros da vida? Seja como for, sabemo-nos finitos no tempo e no saber. Esbarramos sempre com grandes mistérios: Haverá existência após nossa estada pelo reino da consciência, ou nos extinguiremos como a vela que nunca mais voltará a tocar o reino das chamas? Que destino nos espera no remoto amanhã? Ou daqui a um mês? Cinco minutos?

Uma cidade do tamanho das incertezas do mundo me espera. Complexa como as dobras da vida. Para enfrentá-la, minha única arma é a perplexidade de minha finitude...
Enforque-se na corda da liberdade!
L a v o u r a A r c a i c a

"(...) pois só no teu silêncio úmido, só nesse concerto esquivo é que reconstituo, por isso molhe os lábios, molhe a boca, molhe os teus dentes cariados, e a sonda que desce para o estômago, encha essa bolsa de couro apertada pelo teu cinto, deixe que o vinho vaze pelos teus poros, só assim é que se cultua o obsceno (...)"
Raduan Nassar -- Lavoura Arcaica
Acabo de voltar de viagem... Acabo de voltar de um tempo outro, de um tempo estacionado na inamovível roda da eternidade. Acabo de voltar de um mundo supersaturado de poesia, onde cada passo demora o tempo da semente, cada volta revolve o ser e o tempo das coisas. Acabo de assistir ao Lavoura Arcaica.

É difícil dizer qualquer coisa depois de ser sacudido por essa chama. O corpo responde, a alma responde... Se somos anjos montados em porcos, nenhum dos dois consegue ficar indiferente aos lânguidos e lancinantes apelos deste filme. É difícil não sentir a resposta do ventre aos sentidos, da alma às emoções. É difícil mergulhar no ventre mole destas horas e não sair com a sensação de que o mundo (íntimo ou exterior) não foi retorcido na esquina do instante, no átimo de um gole a mais de lirismo.
Lavoura Arcaica é um filme perfeito, absolutamente perfeito. O vinho violento de sua beleza vaza agora pelos meus poros. O choro convulsivo e a escrita igualmente convulsa e febril, após tanto estímulo, são incontroláveis. Também a respiração, dilatada pela dilatação dos próprios vasos sangüíneos, sob o efeito deste Dionísio de imagens, segue o ritmo desta música vertida do pó dos silêncios da alma. E a alma, após assistir-lhe nestas quase três horas de orgia -- dos sentidos -- e comunhão -- dos sentimentos --, volta a ser barroca.
Impossibilitado que estou de escrever qualquer coisa mais coerente sobre esse filme, uma vez atirado numa insólita embriaguez, vendo todas as partes amputadas de minha alma se procurando na antiga unidade de meu corpo, transcrevo abaixo um texto sobre o filme, feito há cerca de quatro anos, alguns meses, creio eu, depois que o vi pela primeira vez (hoje foi a segunda).

Incesto, loucura, religiosidade, blasfêmia, razão, família, treva e luz... Lavoura Arcaica, o filme de Luiz Fernando Carvalho adaptado do romance homônimo de Raduan Nassar traduz perfeitamente o universo das dualidades engendrado pelo escritor em seu livro de estréia.
L a v o u r ' A r c a i c a
Antíteses e Oxímoros captados pela película
A adaptação de Luiz Fernando recria com uma força expressiva e um rigor poético a intensa e enxuta prosa de Nassar. O filme conta a história de uma família de descendentes de árabes dissolvida no silêncio dos conflitos abafados entre o estado arcaico (pré-civilizado) do "ramo podre" da família, e o estado racional, equilibrado, representado por aqueles que se sentavam à direita do pai à mesa.

André, filho rebelde e enfermo, representante perfeito do ramo da família que, segundo o próprio, "havia-se degenerado", é o narrador da história que revela os contrastes, os conflitos, os gritos abafados que ele, e somente ele, "o guardião das coisas da família", ouvia. Este filho "de olhos escuros" nutre uma "pestilenta" paixão por Ana, sua irmã mais nova, que também se senta à mesa à esquerda do pai, na ala doente encabeçada pela própria mãe. Após entregarem-se ao incesto, Ana evita-o, rejeita-o, o que acaba provocando sua saída de casa. O filme começa com Pedro, o irmão mais velho, que encabeça o ramo da família que se senta à direita do pai, que saiu à imagem de seu progenitor, indo buscar André num quarto barato de pensão. É para seu irmão mais velho que André narra toda a história desse amor que nasceu condenado, contaminado pelo "tremor maligno" da epilepsia (aos gritos desesperados André Revela a Pedro ser epilético).
Pedro consegue convencer André a retornar para casa. Este último, como o filho pródigo da parábola que o romance de Nassar recria, regressa. Todavia, ele é ciente de que seu retorno, antes de significar um recomeço, tal como ocorre na história evangélica; é a resolução da tragédia que sua ausência apenas postergou. No festim dado em comemoração ao retorno do "filho pródigo", a loucura de Ana que emerge e o conhecimento do pai acerca do incesto ocorrido constituem-se no desfecho trágico.
Assim como o romance, o filme trabalha bastante os contrastes gerados pelo conflito da paixão, do direito à libido, com a religião ancestral da família, personificada no pai e em seus sermões vazios. A longa duração, que parece contrastar com a narrativa curta e seca do romance, acaba por recriar-lhe, cinematograficamente, a intensidade narrativa (e, de fato, grande parte do filme é narrada). O texto é dito (trechos inteiros do livro) e encenado, numa redundância que finda por aumentar a expressividade do filme. A morosidade dos acontecimentos, que dilata o tempo ou a percepção do mesmo, é a raiz mesma da expressividade da obra de Luiz Fernando Carvalho. Para realçar os contrastes, no plano da interpretação, tem-se a alternância entre gritos de desespero e o "piedoso mutismo" das mulheres (Ana, por exemplo, não fala em nenhum momento do filme), passando pela austera e constante fala do pai. No plano das imagens, a alternância entre claros estourados da fazenda ("era boa a luz doméstica de nossa infância") e cenários escuros onde assiste o filho exasperado.
O grande oxímoro que emerge, reside na fala de André no soberbo diálogo entre pai e filho, logo após o retorno do filho pródigo. Exortado pelo pai a pôr ordem em seu discurso, André responde-lhe com a síntese própria daquela história. "Toda ordem traz uma semente de desordem, a clareza, uma semente de obscuridade". A ordem imposta pela família gerou a desordem na família. André e Ana vivem uma paixão incestuosa. Lula, o caçula da família, ambiciona seguir o exemplo de André e fugir de casa. O próprio patriarca, austero e imperturbável, será a mão algoz de desferirá golpes mortais sobre a própria prole, ao saber do ocorrido entre André e Ana. De Pedro e da Matriarca, pouco se sabe, muito se supõe. As três outras irmãs de André não são personagens das quais se pode supor nada, porém fica a certeza de que André conhecia suas mazelas, como todos os gritos abafados sob as roupas sujas. Nas regras inflexíveis, nos sermões vazios proferidos à mesa, bem como no desmedido carinho materno, residia o germe da dissolução daquela família.

Lavoura Arcaica termina por confundir nossa percepção de tempo. Ao fim do longo filme, tem-se a sensação de que algo mobiliza o espectador por alguns instantes, enquanto este sai da morosidade do tempo arcaico (rural, cujo labor se dá na lavoura) para a confusão do tempo contemporâneo, ao qual ele acaba sendo jogado enquanto sobem os créditos e enquanto tem-se a sensação de se ter assistido a uma obra-prima.

Enforque-se na corda da liberdade!
P a l a v r a s d a m o ç a c o m u m g i r a s s o l p o r d e n t r o
"O moço é ator, cantor, escritor, poeta, amigo. Sua habilidade com as palavras cativa e desperta admiradores, dentre os quais me encontro (e encanto).
Tem lá no fundo o sonho secreto (ou já declarado) de voar, e se não o faz literalmente, o faz na leveza das palavras saídas de sua caneta -- ou pena.
É o moço da poesia e da prosa poética -- traz a poesia no sangue.
É um artista em todas as dimensões possíveis e imagináveis.
É o querido Theo Tostes."
Quem me escreveu estas palavras -- e o fez com tanto carinho que, colocando-as aqui, acredito homenageá-la mais do que a mim, que quiçá não seja merecedor de todas elas --, foi uma moça com um girassol por dentro, nas palavras exatas de minha fofíssima irmã!
Enforque-se na corda da liberdade!
P e r f i l
Eu, Teofilo Tostes Daniel (Theo para todos que quiserem), cheguei por aqui neste mundo no dia 22 de junho de 1979. Sou, assumidamente, do século passado, nascido no último ano dos lisérgicos anos 70.
Sou poeta há 16 anos. Escrevo desde os 11. Mas não me peçam pra ver escritos meus destas longínquas épocas, pois eles não existem mais. Minha obra acaba sendo o que sobrevive a mim. E muita coisa, asseguro, tem sobrevivido. Aos poucos, estou terminando meu terceiro livro de poemas, embora não tenha nenhum publicado ainda. Flerto com a prosa há algum tempo, o que faz incluir nos meus planos a escrita de um livro de contos, uns já escritos, outros ainda por vir.
Sou formado em produção editorial pela UFRJ e trabalho como assessor de comunicação na Procuradoria Regional da República em São Paulo. Tenho uma irmã linda, que é uma grande escritora: a Betinha (Roberta Tostes).
Minhas grandes paixões, além do ser humano, são suas criações artísticas e a história de suas idéias. Este ser complexo tem afinidades com a barbárie e com o sublime. No entanto, nada que é humano me escapa. E a compaixão, a partilha do passional, me aproxima de todos, bárbaros ou angélicos, embora nem a todos eu imite ou adote como modelo.
Embora seja poeta, a música é a minha maior forma de sentir o mundo. Simplesmente amo esta forma de arte, de todas a mais abstrata e a mais capacitada para traduzir a concretude do que sentem os homens.
(...)
A u t o - e n t r e v i s t a
Nome:
Teofilo Tostes Daniel.
Quando nasceu?
22 de junho de 1979, às 18:55, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Câncer com lua em gêmeos e ascendente em capricórnio.
Acredita no zodíaco?
Não creio em bruxas, mas que elas existem...
O que faz?
Sou artista por vocação, curioso por natureza... O diletantismo e o perfeccionismo me acompanham no que eu faço. Sou poeta, escritor, ator, cantor. Sou também estudante e aprendiz, às vezes também professor. O resto são ocupações.
Onde mora?
Em São Paulo menos do que em mim mesmo.
Livros preferidos?
Por que é preciso preferir?
Uma frase?
"Poet’s love’s is this (as in these words I prove thee): / I love my love for thee more than I love thee."
Por que em inglês?
(risos irônicos) Está certo, se preferir: “A morte deveria ser assim: / um céu que pouco a pouco anoitecesse / e a gente nem soubesse que era o fim.”
Amor e morte estão presentes em seus escritos?
Diria que a metalinguagem e a filosofia o estão.
Uma cor?
Vinho.
Estação do ano?
Inverno, ou sempre que faz frio.
O que ouve?
De tudo. Em relação a músicas, sou eclético intolerante. Gosto de boa música.
Como conceituar “eclético intolerante” e “boa música”?
Começo pela boa música. A boa música é aquela que merece a dedicação de meus ouvidos e de meu tempo. Ser eclético intolerante é ouvir de tudo o que há de bom — sem preconceito —, mas ignorar radicalmente tudo quanto não merece a dedicação de meus ouvidos e de meu tempo.
Boa música é um conceito relativo?
Claro que é! Ou você é hegeliano o suficiente para acreditar que haja um belo absoluto? (risos)
Você tem um sonho?
Sim, e o realizo a cada dia. Todos os dias sonho ser escritor. Claro que tenho muitos outros.
Você costuma ter crises na sua criatividade?
Evidentemente. Isso é muito bom, pois volto os olhos para o que já produzi... e muito ruim, porque é um esgotamento sobre o qual eu não tenho controle.
Suas últimas palavras. Enforque-se na corda da liberdade:
Quereria que minhas palavras fossem um argumento de fato, de força... Assim, com elas, buscaria corrigir as crueldades do mundo. Mas como qualquer coisa que eu disser há de ser um argumento retórico, sem força de fato, me calo, com perplexidade, ante o concreto do mundo.
Permita-me uma última pergunta: como um escritor se cala?
Seus escritos são o produto de seu silêncio perplexo ante o mundo. Escrever é uma ação silenciosa neste mundo cheio de barulho e parco de ouvidos, embora possa produzir estrondos. Poesia e filosofia, arte e pensamento surgem e precisam deste silêncio e desta perplexidade.
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