Tabló[i]g - Teofilo Tostes



Terça-feira, Abril 25, 2006

D a n c e r   i n   t h e   D a r k



"They say it is the last song
They don't know us, you see
It's only the last song
If we let it be"

(From the movie "Dancer in the Dark", 2000)


Se nos abandona a luz dos olhos, que outra luz nos resta para guiar nossos passos na escuridão? O senso dos sons? A luz do sentir? O brilho de uma esperança?

Ontem, Lars von Trier mo indagou em sua poética de sons, perfeitamente traduzidas nas expressões e na voz de Björk. E alguém tão apaixonado pelos sons, pela música, não poderia ficar indiferente à beleza deste filme. Alguém tão apaixonado pelos sons não consegue não se apaixonar por Selma Jezková, mergulhada em sua luz interna, apagada em seus olhos para as luzes do mundo.

Escusando resumir aqui o filme, pois suponho que todos que me lêem o tenham visto, ou guardo a esperança de que alguns o vejam após me lerem, passo a comentar alguns pontos tocantes. Cumpre destacar, em primeiro lugar, a duplicidade de Selma. São quase dois personagens que desfilam sob nossos olhos. A Selma que provavelmente todos vêem é uma mulher tímida, quase retraída, oprimida entre a dureza de sua vida, o desespero de sua condição e a culpa de carregar e transmitir seu destino hereditário -- a hereditariedade, em toda sua tragédia, é a forma contemporânea do destino. Mas há uma outra Selma, que vive pelos êxtases que a música, que os sons lhe proporcionam, que desfila lépida e destemida em seu mundo íntimo de sons e sensações. A foto ao lado mostra um momento em que Selma se esforça para ouvir sons de uma capela que escapam pelos subterrâneos e interstícios do presídio em que está confinada. Esta é a cena que, particularmente, mais me tocou. Embora esteja quase em êxtase, a personagem de Björk está vivendo a agonia de não sabem se a suprema corte irá conceder um adiamento da pena de morte a que ela foi condenada, o que permitiria que ela reabrisse o processo. A tensão da cena e do momento é contrastante com a expressão quase alheia em que a personagem se deixa flagrar, neste instante, transportada para as íntimas paisagens graças à quebra do silêncio que a incomoda no presídio.

Outro instante absolutamente mágico é o final do filme. Não o irei contar, posto que talvez alguns não o tenham visto, mas vale o registro da surpreendente força com que Björk canta sua penúltima canção (This isn't the last song / There is no violin / The choir is so quiet -- Next to the last song), com uma voz ao mesmo tempo embargada e enorme. Neste final, na metáfora de não se permitir a última canção -- a Selma fala, durante o filme, que quando assistia a musicais sempre saía antes da última canção -- um suspiro de esperança evola do filme de Lars von Trier. E, neste ponto, há uma grande diferença entre "Dançando no Escuro" e "Dogville" (ambos de Lars von Trier). Em ambos, as personagens principais cometem assassinatos brutais. Mas em Dogville, ao fazer o espectador partilhar do prazer da vingança de Grace, resta a impressão de que realmente o mundo é como Dogville. Assustamo-nos ao partilhar o prazer desta vingança e a humanidade que nos resta pela frente parece não ter qualquer "suspiro de esperança", qualquer sopro sublime que a justifique. Mas em dançando no escuro, Selma já está perdoada antes de cometer o assassinato e, embora seja condenada ao final (o que nos deixa a impressão de uma enorme injustiça), nenhum espectador sequer cogita condená-la (You did what you had to do, também cantamos para ela). E no destino de Selma, somado à mensagem final, com que abri estas considerações, o sublime e a esperança no ser humano se evidenciam.



Enforque-se na corda da liberdade!

Copyright © by TEOFILO TOSTES (todos os direitos reservados) - 10:39 PM


P e r f i l

Eu, Teofilo Tostes Daniel (Theo para todos que quiserem), cheguei por aqui neste mundo no dia 22 de junho de 1979. Sou, assumidamente, do século passado, nascido no último ano dos lisérgicos anos 70.

Sou poeta há 16 anos. Escrevo desde os 11. Mas não me peçam pra ver escritos meus destas longínquas épocas, pois eles não existem mais. Minha obra acaba sendo o que sobrevive a mim. E muita coisa, asseguro, tem sobrevivido. Aos poucos, estou terminando meu terceiro livro de poemas, embora não tenha nenhum publicado ainda. Flerto com a prosa há algum tempo, o que faz incluir nos meus planos a escrita de um livro de contos, uns já escritos, outros ainda por vir.

Sou formado em produção editorial pela UFRJ e trabalho como assessor de comunicação na Procuradoria Regional da República em São Paulo. Tenho uma irmã linda, que é uma grande escritora: a Betinha (Roberta Tostes).

Minhas grandes paixões, além do ser humano, são suas criações artísticas e a história de suas idéias. Este ser complexo tem afinidades com a barbárie e com o sublime. No entanto, nada que é humano me escapa. E a compaixão, a partilha do passional, me aproxima de todos, bárbaros ou angélicos, embora nem a todos eu imite ou adote como modelo.

Embora seja poeta, a música é a minha maior forma de sentir o mundo. Simplesmente amo esta forma de arte, de todas a mais abstrata e a mais capacitada para traduzir a concretude do que sentem os homens.

(...)

A u t o - e n t r e v i s t a

Nome:
Teofilo Tostes Daniel.

Quando nasceu?
22 de junho de 1979, às 18:55, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Câncer com lua em gêmeos e ascendente em capricórnio.

Acredita no zodíaco?
Não creio em bruxas, mas que elas existem...

O que faz?
Sou artista por vocação, curioso por natureza... O diletantismo e o perfeccionismo me acompanham no que eu faço. Sou poeta, escritor, ator, cantor. Sou também estudante e aprendiz, às vezes também professor. O resto são ocupações.

Onde mora?
Em São Paulo menos do que em mim mesmo.

Livros preferidos?
Por que é preciso preferir?

Uma frase?
"Poet’s love’s is this (as in these words I prove thee): / I love my love for thee more than I love thee."

Por que em inglês?
(risos irônicos) Está certo, se preferir: “A morte deveria ser assim: / um céu que pouco a pouco anoitecesse / e a gente nem soubesse que era o fim.”

Amor e morte estão presentes em seus escritos?
Diria que a metalinguagem e a filosofia o estão.

Uma cor?
Vinho.

Estação do ano?
Inverno, ou sempre que faz frio.

O que ouve?
De tudo. Em relação a músicas, sou eclético intolerante. Gosto de boa música.

Como conceituar “eclético intolerante” e “boa música”?
Começo pela boa música. A boa música é aquela que merece a dedicação de meus ouvidos e de meu tempo. Ser eclético intolerante é ouvir de tudo o que há de bom — sem preconceito —, mas ignorar radicalmente tudo quanto não merece a dedicação de meus ouvidos e de meu tempo.

Boa música é um conceito relativo?
Claro que é! Ou você é hegeliano o suficiente para acreditar que haja um belo absoluto? (risos)

Você tem um sonho?
Sim, e o realizo a cada dia. Todos os dias sonho ser escritor. Claro que tenho muitos outros.

Você costuma ter crises na sua criatividade?
Evidentemente. Isso é muito bom, pois volto os olhos para o que já produzi... e muito ruim, porque é um esgotamento sobre o qual eu não tenho controle.

Suas últimas palavras. Enforque-se na corda da liberdade:
Quereria que minhas palavras fossem um argumento de fato, de força... Assim, com elas, buscaria corrigir as crueldades do mundo. Mas como qualquer coisa que eu disser há de ser um argumento retórico, sem força de fato, me calo, com perplexidade, ante o concreto do mundo.

Permita-me uma última pergunta: como um escritor se cala?
Seus escritos são o produto de seu silêncio perplexo ante o mundo. Escrever é uma ação silenciosa neste mundo cheio de barulho e parco de ouvidos, embora possa produzir estrondos. Poesia e filosofia, arte e pensamento surgem e precisam deste silêncio e desta perplexidade.

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