Tabló[i]g - Teofilo Tostes



Sexta-feira, Agosto 25, 2006

S o b r e   f é
Alhures escreveu Rousseau -- e já tomei nota de suas palavras -- compreender "porque os que moram em cidades, e só vêem paredes, ruas e crimes, têm pouca fé (ROUSSEAU, J. J. As Confissões. Livro XII, p. 582). Tais palavras muito me impressionaram e julgo cada vez mais ter a nítida percepção do seu sentido.

A fé evaporara no seio de uma grande metrópole, entre paredes, asfalto e concreto. A fé esmoreceu ao sentir a frieza das pessoas, a distância mantida fechada atrás das portas dos apartamentos; ao ver o céu entrecortado de janelas dos edifícios e pouco da amplidão azul para ser admirada.

Não tenho certeza se o concreto dos edifícios, a artificialidade da orla aterrada, tão simétrica, tão geométrica, tão distante de suas naturais sinuosidades, são responsáveis por essa descrença adquirida no livro das imanências, essa desconfiança, essa incerteza até em relação às coisas que podem ser vistas e tocadas, que são sólidas, mas se desmancham no ar das desilusões. Não sei se, quando o olhar está imerso somente no universo humano, na materialidade dos problemas estruturais, das descrições físicas, biológicas, sociológicas das massas (de matéria, de células e das gentes), o olho perde a capacidade de perguntar às coisas sobre o Criador, "consisitindo a pergunta em contemplá-las e a resposta em sua beleza" (AGOSTINHO, St. Confissões. Livro X Cap. 6). Isso porque contemplar a cidade não é contemplar só a genialidade do gênero humano, mas também a utilitária forma das coisas, onde nem sempre assiste a beleza, posto não haver beleza utilitária, uma vez que a beleza se dá gratuitamente à contemplação dos sentidos dispostos a contemplá-la.

Não sei se o fato de meus pés já há muito desconhecerem a textura de um chão de -- terra ou areia --, só experimentarem a lisa indiferenciação de pavimentos e não poderem se sentir raízes para penetrarem e se irmanarem à terra contribui para a descrença. Quem não tem raízes pode também não ter certezas.

Onde minhas certezas telúricas?

(Escrito publicado em http://br.geocities.com/teofilotostes/ no dia 30 de abril de 2004)

Enforque-se na corda da liberdade!

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Sábado, Agosto 05, 2006

O   a m o r   c o m e u   m e u   n o m e . . .
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

(As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.)

Porque há dias em que temos tanto a dizer e, ao mesmo tempo, tateamos em busca de palavras que teimam em não ser tão sublimes quanto o que queremos falar, pego emprestado este texto de João Cabral, já que nele há tudo quanto desejo expressar hoje.

Enforque-se na corda da liberdade!

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P e r f i l

Eu, Teofilo Tostes Daniel (Theo para todos que quiserem), cheguei por aqui neste mundo no dia 22 de junho de 1979. Sou, assumidamente, do século passado, nascido no último ano dos lisérgicos anos 70.

Sou poeta há 16 anos. Escrevo desde os 11. Mas não me peçam pra ver escritos meus destas longínquas épocas, pois eles não existem mais. Minha obra acaba sendo o que sobrevive a mim. E muita coisa, asseguro, tem sobrevivido. Aos poucos, estou terminando meu terceiro livro de poemas, embora não tenha nenhum publicado ainda. Flerto com a prosa há algum tempo, o que faz incluir nos meus planos a escrita de um livro de contos, uns já escritos, outros ainda por vir.

Sou formado em produção editorial pela UFRJ e trabalho como assessor de comunicação na Procuradoria Regional da República em São Paulo. Tenho uma irmã linda, que é uma grande escritora: a Betinha (Roberta Tostes).

Minhas grandes paixões, além do ser humano, são suas criações artísticas e a história de suas idéias. Este ser complexo tem afinidades com a barbárie e com o sublime. No entanto, nada que é humano me escapa. E a compaixão, a partilha do passional, me aproxima de todos, bárbaros ou angélicos, embora nem a todos eu imite ou adote como modelo.

Embora seja poeta, a música é a minha maior forma de sentir o mundo. Simplesmente amo esta forma de arte, de todas a mais abstrata e a mais capacitada para traduzir a concretude do que sentem os homens.

(...)

A u t o - e n t r e v i s t a

Nome:
Teofilo Tostes Daniel.

Quando nasceu?
22 de junho de 1979, às 18:55, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Câncer com lua em gêmeos e ascendente em capricórnio.

Acredita no zodíaco?
Não creio em bruxas, mas que elas existem...

O que faz?
Sou artista por vocação, curioso por natureza... O diletantismo e o perfeccionismo me acompanham no que eu faço. Sou poeta, escritor, ator, cantor. Sou também estudante e aprendiz, às vezes também professor. O resto são ocupações.

Onde mora?
Em São Paulo menos do que em mim mesmo.

Livros preferidos?
Por que é preciso preferir?

Uma frase?
"Poet’s love’s is this (as in these words I prove thee): / I love my love for thee more than I love thee."

Por que em inglês?
(risos irônicos) Está certo, se preferir: “A morte deveria ser assim: / um céu que pouco a pouco anoitecesse / e a gente nem soubesse que era o fim.”

Amor e morte estão presentes em seus escritos?
Diria que a metalinguagem e a filosofia o estão.

Uma cor?
Vinho.

Estação do ano?
Inverno, ou sempre que faz frio.

O que ouve?
De tudo. Em relação a músicas, sou eclético intolerante. Gosto de boa música.

Como conceituar “eclético intolerante” e “boa música”?
Começo pela boa música. A boa música é aquela que merece a dedicação de meus ouvidos e de meu tempo. Ser eclético intolerante é ouvir de tudo o que há de bom — sem preconceito —, mas ignorar radicalmente tudo quanto não merece a dedicação de meus ouvidos e de meu tempo.

Boa música é um conceito relativo?
Claro que é! Ou você é hegeliano o suficiente para acreditar que haja um belo absoluto? (risos)

Você tem um sonho?
Sim, e o realizo a cada dia. Todos os dias sonho ser escritor. Claro que tenho muitos outros.

Você costuma ter crises na sua criatividade?
Evidentemente. Isso é muito bom, pois volto os olhos para o que já produzi... e muito ruim, porque é um esgotamento sobre o qual eu não tenho controle.

Suas últimas palavras. Enforque-se na corda da liberdade:
Quereria que minhas palavras fossem um argumento de fato, de força... Assim, com elas, buscaria corrigir as crueldades do mundo. Mas como qualquer coisa que eu disser há de ser um argumento retórico, sem força de fato, me calo, com perplexidade, ante o concreto do mundo.

Permita-me uma última pergunta: como um escritor se cala?
Seus escritos são o produto de seu silêncio perplexo ante o mundo. Escrever é uma ação silenciosa neste mundo cheio de barulho e parco de ouvidos, embora possa produzir estrondos. Poesia e filosofia, arte e pensamento surgem e precisam deste silêncio e desta perplexidade.

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