Tabló[i]g - Teofilo Tostes



Domingo, Novembro 12, 2006

V o z e s   d o   S i l ê n c i o

Certa vez ouvi de um físico que as ondas sonoras jamais se extinguem completamente. Vão perdendo intensidade, tornando-se infinitesimais, mas permanecem vagando imperceptíveis, nunca extintas.

Não sei a exatidão física e científica disso, que ouvi de um homem de ciências. Mas me espantam a força e a exatidão poética desta realidade que, mesmo irreal, merece existir ao menos nos devaneios e nas quimeras. E na minha mente. E no meu silêncio, povoado de versos arcaicos, sons primevos, melodias, canções, gritos e sussurros. Sim, por trás do silêncio oiço os sons que nunca se extinguem. Meu silêncio é e sempre foi povoado de sons.

Mesmo o meu silêncio de hoje, o não-dizer o que já se sabe, contém o que já foi dito. Mesmo na ausência de palavras de amor, retiro de ondas que não se extinguem os meus versos, molhados com palavras tão eternas, ditas, quiçá, pelos primeiros poetas anteriores à escrita.

Ante a eternidade de minhas palavras, que vagarão sem rumo no tempo sem fim do infinitesimal, é preciso ter cuidado. É preciso não dizer o que jamais desejaria assinar com a essência de minha carne, é preciso calar o que não deve ser tornado verbo. Por isso, extirpo de mim palavras letais e levianas; por isso amo as palavras poéticas e as persigo para persignar-me, incréu que sou, com aquilo que sei que sobreviverá a mim...

Retiro de trás do silêncio as vozes que ecoam em meu canto. E mesmo sem murmurar que te amo, vagam no espaço, eternas pelo tempo, as palavras de amor que nos dissemos e que nunca se extinguirão...

Enforque-se na corda da liberdade!

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P e r f i l

Eu, Teofilo Tostes Daniel (Theo para todos que quiserem), cheguei por aqui neste mundo no dia 22 de junho de 1979. Sou, assumidamente, do século passado, nascido no último ano dos lisérgicos anos 70.

Sou poeta há 16 anos. Escrevo desde os 11. Mas não me peçam pra ver escritos meus destas longínquas épocas, pois eles não existem mais. Minha obra acaba sendo o que sobrevive a mim. E muita coisa, asseguro, tem sobrevivido. Aos poucos, estou terminando meu terceiro livro de poemas, embora não tenha nenhum publicado ainda. Flerto com a prosa há algum tempo, o que faz incluir nos meus planos a escrita de um livro de contos, uns já escritos, outros ainda por vir.

Sou formado em produção editorial pela UFRJ e trabalho como assessor de comunicação na Procuradoria Regional da República em São Paulo. Tenho uma irmã linda, que é uma grande escritora: a Betinha (Roberta Tostes).

Minhas grandes paixões, além do ser humano, são suas criações artísticas e a história de suas idéias. Este ser complexo tem afinidades com a barbárie e com o sublime. No entanto, nada que é humano me escapa. E a compaixão, a partilha do passional, me aproxima de todos, bárbaros ou angélicos, embora nem a todos eu imite ou adote como modelo.

Embora seja poeta, a música é a minha maior forma de sentir o mundo. Simplesmente amo esta forma de arte, de todas a mais abstrata e a mais capacitada para traduzir a concretude do que sentem os homens.

(...)

A u t o - e n t r e v i s t a

Nome:
Teofilo Tostes Daniel.

Quando nasceu?
22 de junho de 1979, às 18:55, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Câncer com lua em gêmeos e ascendente em capricórnio.

Acredita no zodíaco?
Não creio em bruxas, mas que elas existem...

O que faz?
Sou artista por vocação, curioso por natureza... O diletantismo e o perfeccionismo me acompanham no que eu faço. Sou poeta, escritor, ator, cantor. Sou também estudante e aprendiz, às vezes também professor. O resto são ocupações.

Onde mora?
Em São Paulo menos do que em mim mesmo.

Livros preferidos?
Por que é preciso preferir?

Uma frase?
"Poet’s love’s is this (as in these words I prove thee): / I love my love for thee more than I love thee."

Por que em inglês?
(risos irônicos) Está certo, se preferir: “A morte deveria ser assim: / um céu que pouco a pouco anoitecesse / e a gente nem soubesse que era o fim.”

Amor e morte estão presentes em seus escritos?
Diria que a metalinguagem e a filosofia o estão.

Uma cor?
Vinho.

Estação do ano?
Inverno, ou sempre que faz frio.

O que ouve?
De tudo. Em relação a músicas, sou eclético intolerante. Gosto de boa música.

Como conceituar “eclético intolerante” e “boa música”?
Começo pela boa música. A boa música é aquela que merece a dedicação de meus ouvidos e de meu tempo. Ser eclético intolerante é ouvir de tudo o que há de bom — sem preconceito —, mas ignorar radicalmente tudo quanto não merece a dedicação de meus ouvidos e de meu tempo.

Boa música é um conceito relativo?
Claro que é! Ou você é hegeliano o suficiente para acreditar que haja um belo absoluto? (risos)

Você tem um sonho?
Sim, e o realizo a cada dia. Todos os dias sonho ser escritor. Claro que tenho muitos outros.

Você costuma ter crises na sua criatividade?
Evidentemente. Isso é muito bom, pois volto os olhos para o que já produzi... e muito ruim, porque é um esgotamento sobre o qual eu não tenho controle.

Suas últimas palavras. Enforque-se na corda da liberdade:
Quereria que minhas palavras fossem um argumento de fato, de força... Assim, com elas, buscaria corrigir as crueldades do mundo. Mas como qualquer coisa que eu disser há de ser um argumento retórico, sem força de fato, me calo, com perplexidade, ante o concreto do mundo.

Permita-me uma última pergunta: como um escritor se cala?
Seus escritos são o produto de seu silêncio perplexo ante o mundo. Escrever é uma ação silenciosa neste mundo cheio de barulho e parco de ouvidos, embora possa produzir estrondos. Poesia e filosofia, arte e pensamento surgem e precisam deste silêncio e desta perplexidade.

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